Novos doutores da lei - Camilo (1050)
O ser humano sempre se arrojou detentor de verdades, as quais distribui àqueles que julga estarem afastados delas.
A religião tem
tentado ligar o homem a Deus, baseada nas interpretações do próprio homem.
Através do tempo, temos observado que o fanatismo sempre acompanhou as
criaturas nesse intercurso à procura do Divino.
Devemos analisar
com lucidez o histórico humano junto à religião, os enganos, as guerras fratricidas, os
ódios, o separatismo, as tiranias e tantos outros deslizes nessa relação
conturbada do ser no entendimento do que seja o amor ao Criador, quase sempre
levando muitos ao fanatismo.
O fanatismo religioso ocorre quando a pessoa
passa a colocar suas crenças acima da humildade, da razão, do diálogo e até da
caridade. Ela deixa de usar a religião como instrumento de aperfeiçoamento
íntimo e passa a usá-la como instrumento de afirmação pessoal, de vaidades,
poder ou de pretensa superioridade sobre os outros.
Existem diversos tipos de fanatismo, que
poderiam facilmente ser classificados,
demonstrando como o indivíduo se confunde acerca do que sejam o amor e a
adoração e passa a interpretar a religião como a sua própria identidade,
promovendo, por meio dela, barreiras que, em vez de libertarem, aprisionam.
Um tipo de
fanatismo é o doutrinário, certas pessoas pegam a palavra e a tornam
irrevogável, isso ocorre quando alguém trata as obras espíritas como se cada
frase fosse intocável, recusando qualquer ponderação diferente, contexto
histórico ou interpretação. Em vez de estudar, passa a apenas repetir, tratando
tudo pela letra, que não pode sofrer uma reflexão diferente.
Inclusive, como
tudo progride, uma ideia espiritual não poderia progredir? O que foi dito será
realmente imutável e ou irretocável? O próprio Universo prova o contrário.
Bem, Jesus jamais foi duro com os pecadores.
Aqueles de má vida recebiam d'Ele compreensão e amor que os modificavam.
Zaqueu, a Samaritana, Dimas e Madalena receberam do Mestre palavras doces. Seus
confrontos e as palavras mais duras foram dirigidas aos doutores da lei.
E por que será?
Aos que
acreditavam já estar espiritualmente seguros, Jesus reservava duras
advertências, porque o orgulho e a vaidade do saber costuma ser mais difícil de
perceber e corrigir.
Jesus recebeu
prostitutas, sentou com cobradores de impostos e criminosos, conversava e
acolhia a todos os excluídos, endereçando-lhes palavras de transformação,
sustentando neles a busca pela melhoria. Enquanto os religiosos, os doutores da
lei, foram por Ele chamados de hipócritas, de lobos travestidos de ovelhas, de
usurpadores da fé!
Justos dizermos que,
isso se deu porque eles acreditavam que o conhecimento os tornava melhores do
que os outros. Eram cultos, liam as escrituras e tendo acesso as essas
verdades, em vez de se transformarem em exemplos, tomavam as tribunas e os lugares
de destaque para ostentar sabedoria, inteligência, castrando as pessoas,
criando
barreiras e regras absurdas, deturpando a simplicidade de chegar a Deus,
fomentando um arcabouço de diretrizes que nem eles mesmos seguiam.
O perigo continua
existindo. Sempre que a religião se transforma em motivo de vaidade, superioridade moral ou necessidade de corrigir
constantemente os demais, talvez
estejamos nos aproximando mais dos doutores da lei do que dos servidores de
Jesus.
E vejam, quem diria, os doutores da lei
continuam imiscuindo-se em todas as religiões
e, em vez de perguntarmos: “Quem são os doutores da lei de hoje?”, talvez
a pergunta mais útil seja: “Em que momentos eu mesmo ajo como um
deles?”. Essa é uma pergunta que incomoda, mas que costuma ser muito mais
transformadora.
Porque os “doutores da lei” nos parecem
estar muito distantes; todavia, com roupagens diferentes e em ambientações
diversas, eles continuam entre nós, nos grupos religiosos, e enxameiam,
causando os mesmos embaraços às pessoas. Conhecê-los-emos pelas imposições,
pelo orgulho e pela vaidade no que dizem e na forma como agem, por se arvorarem
sempre em protetores de crenças que suas confusas concepções religiosas julgam
defender.
Foram eles mesmos,
defensores das doutrinas e religiões que arrastaram a Terra a esse atraso e
separatismo, corrompidos por suas paixões.
É tão fácil
falar, se arvorar este ou aquele, trajado de evolução, subir numa tribuna,
comandar um grupo e dissertar sobre virtudes. Difícil mesmo é exemplificar. É
muito fácil falar de virtudes com palavras; difícil mesmo é vivê-las. Palavras
bonitas não constroem caráter. A melhor pregação aos outros continua sendo o
exemplo e não, hora ou outra, derrapar naquilo mesmo que se condena nos outros.
Quem realmente
vive aquilo em que acredita não precisa ficar anunciando isso o tempo todo. Os
primeiros sinais de atraso espiritual são o orgulho e a vaidade.
Realmente, é
muito difícil para o ser humano se analisar e perceber-se como realmente é. Não
que essas pessoas sejam más. É que essa paixão que nutrem pela própria
personalidade, criada em torno da religião abraçada, constitui a identidade que as preenche interiormente. Se isso
lhes for tirado, enfrentarão um vazio existencial profundo.
Só que não
podemos nos esquecer de que o grande processo evolutivo consiste em
observar-se, olhar para si mesmo e não para o outro. Ver-se como se é, deixando o ego repousar e desnudando-se
humildemente. Retirar as máscaras cristãs é deveras trabalhoso para o espírito, e isso só se dará quando ele, em exercícios hercúleos, parar de
olhar para o outro e mergulhar dentro de si, nas profundezas das próprias imperfeições.
E isso tem custado
para muitos, que se negam veementemente a esse enfrentamento!
É preciso entender
que, quanto mais conhecimento, mais o ser reconhece que lhe falta muito para
poder dissertar verdades religiosas aos outros. Quando carece de verdadeiros
exemplos de humildade e tolerância, é aí que se transforma em fiscal da
evolução alheia, cristalizando-se em dogmas. Curiosamente, um dos sinais claros
do fanatismo não é o excesso de amor à religião, mas a perda da capacidade de
rir de si mesmo, admitir erros e dizer: “Posso estar equivocado aqui.”
No final, perceberemos que, toda vez que
cerceamos as individualidades, que nos elegemos para reger as pessoas, que queremos liderar com presunção e
arrogância,
nos falta modéstia e moderação e estamos seduzidos ainda, apesar dos milênios,
a fatuidade de vestirmos as mesmas túnicas dos “doutores da lei”, que asseverou
Jesus, são como sepulcros caiados, cheios de exterioridade pulcra, esquecidos
das sujidades do íntimo.
Às vezes,
deveríamos nos perguntar: nós, os religiosos que estudamos tanto, não corremos
o risco de trocar transformação por informação? Porque é muito fácil falar
sobre humildade, perdão e caridade, citar frases e autores. O verdadeiro
desafio é perceber quanto disso já
conseguimos viver no cotidiano. Talvez devêssemos nos preocupar menos em
ensinar e mandar, e mais em exemplificar, porque o conhecimento que não se
converte em ação pode alimentar exatamente os defeitos que estamos tentando superar.
E o resumo seria: Jesus não escreveu livros,
não fundou igrejas, não elegeu religião alguma. Nasceu pobre, e toda a sua vida
na Terra foi um espelho para a humildade, exemplificando, com atitudes e ações,
aquilo que dissertava, deixando bem claro que o lugar para adorar o Pai era no
cadinho do coração, sem rituais ou leis,
com simplicidade e naturalidade, sem marcas pessoais ou tabus.
Camilo
Mensagem psicografada na reunião
mediúnica do dia 11 de junho de 2026, na cidade do Salvador, Bahia, pelo médium
Jorge Antônio

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