Pobre Pôncio Pilatos - Natividade (1047)



    Nas fileiras de Roma, um oficial do exército podia, se soubesse utilizar de alianças, lealdade ao imperador, influências, e fizesse o jogo político de interesses, galgar cargos administrativos, melhorando suas regalias e soldos.

    Assim se deu com Pôncio Pilatos, quando o imperador Tibério César, através de articulações e amizades suas influentes, o nomeou governador da Judéia no ano 26 d.C.

    Pôncio era um homem duro, arrogante, inflexível, acostumado às linhas de enfrentamento e domínio do exército romano e, como a região da Judéia era uma área bastante tensa e problemática, com episódios constantes de revolta e rebelião, o imperador aceitou de bom grado a nomeação de Pilatos, pelo pulso forte de um militar para impedir e evitar os estados rebelosos dos colonizados.

    Cabia a Pôncio, como governador, como dito, manter a região em paz, livre de qualquer desordem. Cobrar os impostos para Roma, fazer valer as leis do império na província, protegendo a imagem do imperador e julgando as questões junto ao povo judeu concernente ao respeito e à ordem romana.

    Seu casamento com Cláudia Prócula foi igualmente uma articulação política, visando o fortalecimento de status e uma melhor posição e aceitação junto ao alto-patriciado romano.

    Pôncio Pilatos vivia na Cesareia Marítima, lugar bucólico, onde ‘reinava’ com a esposa com muito conforto, usando tantas vezes da força bruta e injustiças para assegurar seu poder.

    Pilatos temia muito perder o cargo, pois as reclamações oriundas da Judéia chegavam constantes aos ouvidos de César e ele contornava certas situações enchendo os cofres de Roma, sendo mais severo ainda na arrecadação dos impostos.

    Pilatos era bem conhecido pela sua austeridade, sua forma violenta de lidar com qualquer insurreição, dando mando aos soldados para usar livremente a força e brutalidade contra o povo judeu, a quem ele desprezava e não entendia as tradições.

    Contudo, Pilatos não ficou conhecido nos anais da história pelo seu ódio e selvageria, mas exatamente por sua covardia. Esse detalhe fez Pilatos se tornar um símbolo da fraqueza moral.

    Naquele dia, ao receber um aviso da esposa: “não tenha nada a ver com esse homem justo, pois essa noite fui atribulada no sono por causa dele”, Pilatos titubeou no seu dualismo, entre as realidades que sua consciência gritava e as aparências que queria manter assegurando sua posição de destaque para conter os ânimos na Judéia, sem reclamações do Sinédrio junto aos Patrícios.

    Ele até quis inocentar Jesus, pois os olhos daquele homem, ao se encontrarem com os seus, ele percebeu imediatamente que estava diante de um ser diferente.

   Há espíritos que caem pela insensatez. Outros, pelas paixões que os dominam. Mas Pôncio Pilatos parece ter tombado pela fraqueza silenciosa dos homens que sabem a verdade… e mesmo assim não a seguem.

   Ele, que estava habituado a muitos desabarem diante do seu julgamento, implorando e tremendo com medo da morte, viu que Jesus não tinha esse medo no olhar, mas sim, uma força que ele nunca tinha visto, nem em reis ou imperadores.

    Era um olhar de certeza, que ele não sabia de onde vinha. De verdades que ele não conhecia e de uma coragem que estava muito além das posições humanas.

    Pilatos talvez tenha passado a vida acreditando na força do Império de Roma. Na autoridade dos decretos. Na permanência do poder que ele tanto perseguia. Na superioridade dos vencedores. Mas bastou um homem justo ferido, silencioso e coroado de espinhos, para abalar o império secreto dentro dele.

    Foi Pilatos, com o poder nas mãos, de controle sobre a vida e a morte, que se acovardou e tremeu diante de Jesus. O covarde, mesmo asseverando que não via naquele homem nenhum crime, concordou que um inocente fosse morto para agradar as futricas e políticas humanas.

  E desde então, a figura de Pilatos atravessa os séculos como um símbolo doloroso: não do mal absoluto… mas da consciência fraca, vencida pela conveniência.

   Jesus, mesmo condenado à morte, se achava grande, um gigante, diante de Pilatos, e ele, o condenador pequeno, um anão da alma.

   E, num gesto de tentativa para inocentar a culpa que lhe corroía no íntimo, lavou as mãos, tentando inocentar o criminoso que ululava dentro das sujidades e corrupções no profundo do seu ser.

  Ó Pôncio, esquece-te que a água só pode limpar a carne e não o espírito imundo...

 Ninguém lava as mãos diante da própria consciência. Não sabias? Você condenou o inocente a cruz, mas a verdadeira cruz foi sua, não a da condenação pública, mas a da sua memória culpada.

  Jesus estava preso. Mas era Pilatos o encarcerado da mente. Cristo estava ferido no corpo. Mas foi Pilatos que sangrou invisivelmente por dentro.

  Você, ó infeliz, acusou o inocente e o inocente perdoou as suas diatribes através do olhar meigo, que entendeu toda sua fraqueza. Mas você, você meu irmão, nunca conseguiu se perdoar…

    E eis uma das maiores lições espirituais escondidas nessa história: o poder exterior não salva ninguém da própria miséria moral e do remorso.

    Aquele ato te perseguiu e te malsinou a existência.


    E contam que Pôncio Pilatos, depois daquele dia, jamais dormia em paz. Suas noites eram atormentadas com as lembranças do justo, que ele sabia ser diferente, e mesmo assim enviou ao madeiro infame em torturas inenarráveis.


    Há poderosos que dormem atormentados. Há pobres que repousam em paz. Há homens cercados de soldados que vivem dominados pelo pavor. E há espíritos aparentemente derrotados que caminham livres diante da eternidade...

    Ááá, Pôncio, o remorso! Não sabias tu que é a maior tortura. Muito superior que essas das armas romanas que infringem dor...

    A dor da culpa é muito mais dolorosa e corta sua alma, dilacerando sua lucidez e aprisionando sua mente.

    Pilatos, três anos depois daquele fatídico dia, encontrou os vexames do afastamento, perdendo o cargo com acusações severas sobre suas injustiças e o uso descontrolado da força bruta, perdendo o rumo da sua vida e alma.

    Ainda hoje, nessas esquinas das estradas invisíveis da eternidade do mundo espiritual, todos aqueles que atuam com covardia, omissão contra as injustiças, tiranias e arbitrariedades, se evadindo de defender a justiça e fazer valer os direitos dos semelhantes, são recordados como os Pilatos, que preferem lavar as mãos, mas que sujam a alma.

    E os Pilatos ainda caminham buscando reencontrar aquele Cristo, que um dia esteve diante deles, em uma oportunidade sem igual… e que eles não tiveram a coragem de defender e professar.

Natividade

Mensagem psicografada na sessão mediúnica de segunda-feira, dia 21 de maio de 2026, em Salvador, pelo médium Jorge Antônio.

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