Madrugadas de Trabalho - Alberto Fonseca (1036)
As esperanças pelo sucesso da tarefa nos elevavam aos mais puros sentimentos.
A noite chuvosa da urbe era a melhor ambiência para as atividades do Bem. As ruas quase vazias e a calma eram traduzidas na atmosfera molhada.
A Equipe
Espiritual já tinha designado alguns médiuns encarnados para os aprendizados
proveitosos que seriam dilatados na madrugada. O caso anotado era vindo de um
atendimento oriundo da reunião mediúnica, que já tinha, com sucesso, separado o
espírito obsessor da sua vítima. E ele agora, revoltado, proferia palavrões,
nos acusando de ter atrapalhado seus planos de vingança.
De punho
cerrado, desferia socos no ar. Se arvorava um semideus e afiançava que todos
nós nos arrependeríamos amargamente de termos nos intrometido nos seus
tentames. Nos chamava de covardes e advogados do diabo, jurando que teria modos
de nos prejudicar, nos ameaçando.
Sua vítima era
um senhor que já contava 69 anos. Fazia muito tempo, vinha sofrendo todo tipo
de problemas orgânicos, financeiros e de convivência, devido à influência
maléfica desse agressor. A vítima, depois de muita relutância por ser de outra
religião, cansada de tantos tropeços e sofrimento, decidiu finalmente aceitar as recomendações de um amigo e
foi à Casa Espírita em busca de explicações e de socorro.
A equipe
espiritual conseguiu então com êxito separá-los, e agora, junto aos
trabalhadores encarnados, se encontrava num posto de atendimento.
O nosso irmão agressor no momento já parecia mais calmo, embora ainda revoltado com o afastamento da
sua vítima. O local vagamente lembrava um hospital da Terra, só que com uma
aparelhagem regida por forças magnéticas e energias volitantes difíceis de
serem explicadas aos encarnados. A maca sem pernas, que vagava no ar por forças
magnéticas ainda não utilizadas na matéria, esperava convidativa pelo irmão
obsessor. Esse refutava deitar-se nela, acusando que aquilo tudo era alguma
armadilha nossa. Sob a indução magnética dos passes longitudinais, mostrou o
cansaço que lhe dominava e deitou-se.
Contudo, aquele
não era um cansaço físico como o da carne. Era uma exaustão de tanto tempo no
sentimento enfermo do ódio, junto as vibrações do rancor. Logo logo, pareceu
entrar num transe. Servidores trouxeram, então, um maquinário que volitou sobre
sua cabeça, exatamente sobre os vórtices coronários. Foi quando vimos abrir,
quase ao lado, uma tela amórfica que mostrava detalhes do cérebro. Não era o
cérebro da carne, é claro, mas o
perispiritual — um duplo daquele que lhe revelava a topografia de todo o córtex.
A massa acinzentada, desforme, aparecia agora
aumentada
na tela. E víamos, tal qual a imagem de um microscópio atômico, os vibriões que
ali se aglutinavam e se locupletavam.
Determinadas
áreas do cérebro estavam densas, escuras e rígidas, como se a circulação das
energias estivesse ali bloqueada.
Foi quando
o nosso Instrutor nos informou:
— Aí está, meus
irmãos, o que anos se dedicando à vingança, prisioneiro das celas do ódio,
acarreta. Vemos aqui como o fluxo nesse espaço se encontra enfermo; enquanto
outros sítios mostram fluência das energias, aqui, nesse espaço, onde se
aglutina o sentimento do ódio, percebemos certos nós que impedem a
circunfluência das forças. Nosso irmão ficou anos na monoideia da vingança; era
isso que o nutria e movia, e essa
parte encontra-se atrofiada. Vejamos depois o que o entendimento vai promover
no local. Observem agora o que se desenrolará na tela.
De repente, a tela sem muita
forma cresceu em nossa frente. Parecia agora as projeções cinematográficas da Terra, só
que em terceira dimensão. Nela vimos, então, nosso amigo agressor sendo expulso da própria casa pela vítima que, numa outra vida, era um rico detentor de várias propriedades imobiliárias. E, tendo comprado
algumas casas para erguer
um empreendimento maior, fez nosso irmão e família abandonarem, à força, o lar. Vimos
na tela o obsessor furibundo de ódio jurar-lhe vingança.
Fascinante,
conquanto as imagens se desdobravam na tela à nossa frente, nosso irmão deitado
na maca convulsionava em ódio, pois ele também as via na tela *mnemônica.
Agora nosso Instrutor, chamando-o pelo nome, disse:
—
Alfredo, olha agora vocês dois em uma outra vida meu
irmão, num tempo mais distante.
Agora vimos
vítima e agressor com papéis trocados. Nosso irmão agressor, com a esperteza de
uma raposa, através de um negócio escuso, toma a residência daquele que agora
lhe era vítima. As cenas se desdobravam e nosso irmão na maca agora chorava
copiosamente. E, gritando, perguntava:
—
Quer dizer que eu fiz o mesmo com ele? Eu fui
primeiro o algoz? Já tínhamos nos encontrado antes?
—
Sim, meu caro. Quase sempre os relacionamentos
difíceis da Terra não tiveram início em apenas uma única existência. Às vezes
as vítimas foram os algozes, e os algozes, vítimas, trocando os papéis regidos
pelo ódio, até que o lenitivo do amor cure as agressões de séculos.
Sem acreditar o que
as imagens traziam, nosso irmão colocava as mãos sobre a fronte e, tal como um
louco desarvorado, gritava.
Quando nosso
Instrutor, com muita amabilidade, lhe disse:
—
Entenda, meu irmão, que só podemos nos livrar da
guerra do ódio se conhecermos a paz do perdão. Se tivermos bom senso,
veremos que muitas vezes fomos nós
mesmos que iniciamos a contenda e fomos tiranos
cruéis
no passado. Aceite nossa ajuda para se libertar dessas dores profundas Alfredo.
— E se eu aceitar o socorro, o que acontecerá comigo?
— Você, meu irmão,
poderá dar início à sua cura. E logo mais, se arrependendo e se reformando,
poderá encontrar mulher e filhos que a cegueira do ódio não te permitiu mais
ter contato por todos esses anos. O ódio, meu filho, é uma estrada que leva à
profundidade da dor, aprisiona e desfalece as forças.
Abatido, choroso,
vimos nosso irmão aceitar o socorro e sair levado pela caravana de médicos.
Antes da prece,
em agradecimento à noite proveitosa no bem, o instrutor nos disse:
—
Viram? O obsessor não é nenhum monstro. É apenas um
irmão nosso enganado, que se enveredou pelos labirintos do ódio e, cego, ficou
perdido na ilusão da vingança.
— Sua mente será
renovada e refeita pelo amor e pelos esclarecimentos da luz.
Todos volitamos
de alegria pelos aprendizados da noite, certos de que seriam introjetados em
nós.
Dando graças ao Criador,
encerramos as atividades do bem.
Alberto Fonseca
Mensagem psicografada na reunião mediúnica do dia 05 de
março de 2026, na cidade do Salvador, Bahia, pelo médium Jorge Antônio.
* Tela Mnemônica — é um conceito que descreve o processo
pelo qual as memórias de um Espírito, particularmente experiências passadas e
reencarnações anteriores, são projetadas, visualizadas ou “relembradas” no
perispírito.

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