É preciso nascer de novo! - Natividade (1009)


Jerusalém dormia em silêncio. Em verdade, a cidade nunca estava calada. Podia-se ouvir os passos dos soldados romanos na pedra antiga das ruas, sinalizando a passagem da milícia, restringindo a liberdade do povo oprimido.

O cheiro do incenso, que vinha do templo, revelava que os levitas continuavam com os cânticos de louvor tardios.

Os fariseus eram os cuidadores dos rigores da lei, doutores estudiosos dos livros sagrados. Os saduceus tinham o poder e o controle do templo. Os levitas eram os responsáveis pela limpeza e serviços religiosos. E os zelotes eram o grupo militante que queria libertar Israel do domínio romano; entre eles, o povo comum, de um lado, oprimido pelos rigores religiosos, e, do outro, pelas limitações de uma nação tomada por Roma.

Contudo, todos eles esperavam ansiosos pelo Messias, que libertaria Israel do poderio da águia e da devoção forçada aos césares.

Entretanto, aquele Messias apontado era diferente. Primeiro, Ele vinha de Nazaré, cidade inexpressiva, que nunca, na história, tinha jamais recebido um profeta ou algo parecido. Segundo, Ele não empunhava nenhuma espada e não tinha perfil algum que regimentasse um exército liderando a libertação da nação. E, terceiro, Ele falava coisas indecifráveis.

Naquela época rude, de guerras, o filho simples de um carpinteiro falava sobre amor e perdão, algo tão distante daquela realidade opressora e cruel, e dissertava sobre um reino impalpável, que não podia ser visto pelos olhos humanos.

Na verdade, esse Jesus era um enigma para os fariseus. Ele não tinha passado pelas escolas ortodoxas do judaísmo, porém falava com tamanha autoridade e ciência sobre a lei. Sua palavra era firme como a rocha e suave como o toque do orvalho.

E o que os deixavam ainda mais incomodados era o orgulho ferido, já que Jesus, quando discursava, atraía toda a gente, que ficava abismada pela irradiação das suas narrativas, causando neles profundo despeito.

Havia um entre eles, entretanto, que não o odiava: doutor bastante respeitado do Sinédrio, o maior tribunal de Israel, e profundo conhecedor da Torá, estudioso das leis e homem probo. Nicodemos, todavia, não encontrou em nenhum dos pergaminhos respostas que aquietassem seu íntimo, cheio de questionamentos acerca da vida. Ele viu essa chama de sabedoria nos olhos daquele Jesus que seus compatriotas tanto criticavam e acusavam de farsante.

Usando de suas influências, conseguiu marcar uma entrevista com o Mestre; reservou-a à noite, utilizando-se de seu véu escuro para esconder o homem curioso, cheio de dúvidas no coração, e não sofrer críticas dos amigos do Sinédrio.

Muitos dos fariseus, ao estarem frente a frente com Jesus, faziam-lhe lisonjas falsas para mostrar alguma reverência ao Mestre, mas, na verdade, sempre tinham o interesse de pegá-lo em alguma contradição.

Nicodemos era diferente, perspicaz e homem verdadeiro. Foi muito feliz ao se referir a Jesus:

— Rabi, sei que és Mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que fazes, se Deus não estiver com ele.

Mostrando, assim, ser diferente dos outros integrantes do Sinédrio que O perseguiam. Nicodemos admirava Jesus e realmente veio ao seu encontro à procura de respostas para o que inquietava o seu íntimo.

Jesus, olhando profundamente para o doutor da lei, lhe disse:

— Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus.

Nicodemos, acostumado aos rigores e aos estudos da Torá, na integralidade das palavras ao pé da letra, se assombrou, sem conseguir captar a profundidade espiritual da frase do Mestre. E redarguiu:

— Nascer de novo? Como pode um homem voltar ao ventre de sua

mãe?

Ele não interpretara o simbolismo das palavras, não mergulhara na sua essência. O Mestre falava-lhe não de rituais humanos, mas de renovação íntima; não da lei escrita em tábuas, mas da lei viva escrita na consciência.

E Jesus não falou-lhe apenas da reencarnação — do renascimento do espírito em outro corpo —, mas demarcou igualmente a morte do homem velho para o nascimento de um novo homem, ainda na carne, com valores diferentes dos do mundo.

O discurso de Nicodemos com Jesus não é um diálogo entre dois homens apenas, é um marco divisor: o fim da religião de aparências para a religiosidade do amor; o encerramento daquele judaísmo tão rigoroso de abluções, jejuns, oferendas e ritos externos, para a crença íntima e inviolável da fé, que não necessita de intercessores para chegar até Deus, e que se alcança pela bondade do coração.

É o nascimento do homem íntegro, verdadeiro, liberto de dogmas e aleivosias que separam e mutilam a fé.

É o homem velho que morre, consciente do que já não lhe serve, e deixa nascer o novo, inviolável nos princípios, incorruptível e destinado a amar e perdoar, entendendo fatalmente sua comunhão com Deus.

Jesus propunha a pureza interior, numa fé que se faz em espírito e verdade.

E essa transição, dolorosa e luminosa, é o que separaria o homem velho do homem novo que Nicodemos queria se tornar.

A partir daquela noite, o mestre dos judeus começou sua própria travessia: o doutor da lei morria e nascia o discípulo da vida.


Mais tarde, quando o Cristo foi crucificado e morto, Nicodemos estava lá, ao lado de José de Arimateia, trazendo aromas e panos de linho para envolver o corpo do Mestre.

Enquanto o envolvia, lembrou-se das palavras ditas naquela noite:

“O que é nascido do Espírito é espírito.”

E compreendeu, enfim, que a morte não era o fim, mas um parto para um novo começo.

Enquanto aquele povo esperava um rei terreno, Jesus falava da realeza do Espírito.

Enquanto esperavam por um Messias empunhando espada, Ele veio deflagrar o amor, a maior arma que existe.

Enquanto o Sinédrio discutia pureza de ritual, Ele ensinava a pureza de intenção.

E é por isso que, até hoje, a noite de Nicodemos continua acontecendo em cada alma que, cansada da forma, busca o sentido; cansada de valores amoedados, busca o valor do ser; cansada da matéria, busca o espírito — e, no silêncio da própria dúvida, ouve-se o sussurro do Cristo dizendo para cada um:

— É preciso nascer de novo!



Natividade

Mensagem psicografada na sessão mediúnica de segunda-feira, dia 06 de outubro de 2025, na Mansão do Caminho, pelo médium Jorge Antônio.

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