Acomodação das riquezas - Irmão Natividade (1000)

É notório a todos que os discípulos de Jesus gostariam de vê-lo discursar aos poderosos, nos grandes centros, na capital da Palestina, no suntuoso Templo de Salomão, diante dos mais eruditos e importantes da época.

Mas os planos do Mestre eram outros. Jesus se voltava aos pobres e humildes, aos sofredores e enfermos, nas pequenas aldeias e burgos de Israel.

Os discípulos acreditavam que, se Jesus pregasse aos poderosos e importantes, estes seriam tocados por sua irradiação magnética, iludidos de que esses insensíveis pudessem ser movidos pelas palavras do Mestre e viessem a patrocinar seu ministério, favorecendo a Obra e auxiliando na divulgação da Boa Nova.

Assim são os homens: pensam sempre nas facilidades, preocupadíssimos com as aparências, com seu posicionamento diante dos importantes do mundo, e não diante dos de Deus.

Onde o Mestre aportava, a multidão de enfermos, pobres, velhinhos, aleijados e estropiados chegava aos montes, e os discípulos sabiam que isso afastava as pessoas influentes e ricas, já que estas não se misturam com essa ‘ralé’.

Portanto, tantas vezes os discípulos, em conversação particular com Jesus, chamaram a atenção do Mestre a isso, requisitando que Ele desse maior atenção aos influentes de Israel.

Pobres criaturas humanas, sempre acreditam saber a verdade das coisas… Quanta arrogância do homem, pontuar ao Mestre (que tudo sabia) como Ele deveria se comportar.

Exatamente assim somos nós, ofertando nossas opiniões acerca de coisas cuja essência e profundidade não conhecemos, principalmente quando se trata das coisas espirituais, tão além das reduzidas percepções humanas.

Mas, estando o Mestre naquele burgo, um jovem rico apareceu e se destacava de maneira diferente no meio daquela multidão de indigentes e sofredores. Suas vestes eram de linho e bem alinhadas, sua postura esbelta e garbosa. Fazia-se notar entre todos, destacando-se.

Aproximando-se cada vez mais, o jovem chegou bem próximo de Jesus, e as contundentes palavras do Mestre o sensibilizaram profundamente.

E num ímpeto, o jovem falou:

—   Bom Mestre, que faço para herdar a vida eterna?

Jesus fitou-o na profundidade do olhar e respondeu:

—   Por que me chamas de bom? Ninguém é bom senão Deus!


Alguns podem achar grosseira a resposta de Jesus a uma questão tão simples e comum à curiosidade de muitos.

A verdade é que Jesus conseguia ler as criaturas, saber o que cada uma delas trazia no íntimo. O que muitos não sabem é que aquele jovem rico era um ‘acomodado’, acostumado a que todos o servissem. Ele não tinha obras no bem, vivia à custa das suas poses e dos serviços alheios, sua vida era a de aparências, vazia e fútil, e ele era apegado às suas riquezas, escravo delas.

Muitos dos que ali estavam eram seus serviçais, ou já lhes haviam prestado serviços; eram assalariados dele. Ele era a pessoa mais importante da aldeia e se sustentava na posse das suas riquezas.

Jesus lhe respondeu de modo a tocá-lo intimamente, para que compreendesse que o Reino dos Céus não era algo fácil de alcançar, como sua vida sempre fora, sustentada pelos favores alheios. Isso exigiria sacrifícios e a compreensão de que Deus estava acima de tudo e de todos.

Jesus completa perguntando ao jovem:

—   Conheces os mandamentos? — perguntou o Mestre. E, à medida que os enunciava um a um, o sorriso foi-se apagando do rosto do jovem, até dar lugar à desolação e à apatia.

É que o orgulho dele havia sido atingido. Na frente de todos que o conheciam como figura ilustre da aldeia, o Mestre o fez parecer uma criatura comum, como as outras, e ele, acostumado a reverências, sentiu-se diminuído e igual a todos.

E quantos não estão, neste momento, vivendo isso, comportando-se exatamente como esse jovem? Esforçando-se muito pouco, fugindo dos desafios da vida, preferindo permanecer na zona de conforto, desperdiçando oportunidades de servir e fazer o bem, confundindo paz com inércia.

Em termos espirituais, a acomodação e o conforto que as boas condições financeiras trazem são perigosos para muitas pessoas, porque a vida é movimento, aprendizado, progresso e esforço. O espírito que se acomoda mostra falta de iniciativa na vida; é um ser que precisa de empurrões constantes, retardando seu crescimento e deixando de aproveitar as chances da reencarnação.

Logo, o jovem respondeu, tentando justificar:

—   Conheço os mandamentos e os tenho respeitado desde a minha infância.

Falou isso não para responder exatamente à questão do Mestre, mas para se justificar quanto aos seus apegos. E Jesus conhecedor do íntimo daquele jovem, completa:

—   Porém, te falta algo: vai e doa toda a tua fortuna aos pobres, e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-me!

Todos, então, viram o jovem sair triste e cabisbaixo, desolado com a proposta de Jesus.


Realmente, era uma proposta muito audaciosa e difícil de ser acatada por qualquer um que seja apegado às coisas da Terra.

—     Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riqueza! - disse o Mestre a Simão Pedro, enquanto o jovem se afastava cabisbaixo.

Disse isso Jesus porque é errado ter riqueza? Claro que não!

Falou isso o Mestre por causa dos perigos que a riqueza gera na alma humana: a acomodação, a infiltração de sentimentos de orgulho e egoísmo que ela suscita, as tentações que provoca nos embevecidos por ela, o enfraquecimento das vontades e a inércia quanto às conquistas dos talentos e aptidões importantes para o desenvolvimento espiritual.

Muitos nela se perderam, hipnotizados pelos seus tentáculos, que favorecem um mundo de facilidades nocivas à alma e à evolução do ser.

E Jesus sabiamente completa:

—   É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, que um rico adentrar no Reino de Deus!

Não porque a riqueza seja um mal, mas por causa do que ela causa na alma dos que não sabem recebê-la, cegando as criaturas embevecidas por suas ramagens de ilusões e fazendo-as perder as chances de gerar benefícios e servir.

E a verdade é que...

O Reino dos Céus não é destinado para os que são servidos, e sim, para os que servem!

 

Irmão Natividade

Mensagem psicografada na sessão mediúnica de segunda-feira, dia 25 de agosto de 2025, na Mansão do Caminho, pelo médium Jorge Antônio

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