Espíritas corajosos - Batuíra (993)
São Paulo, no começo do século XX, era então muito diferente da agitada capital de hoje.
Datava do ano de
1905 e a cidade mostrava os primeiros sinais de crescimento com o auge do ciclo
do café, que enriquecia a elite paulista, e financiava obras urbanas
importantes, já desenhando a grande metrópole nascente.
A população era
ainda muito pequena, mas crescia vertiginosamente com o número de imigrantes
que chegavam aos milhares em busca dos muitos empregos gerados pelo café e
pelas pequenas fábricas que nasciam, se destacando entre elas, as têxteis, de
alimentos e as metalúrgicas.
São Paulo inovou
nos transportes no Brasil, primeiro ligando a
cidade ao porto de Santos e aos interiores através das linhas férreas.
O telefone era
ainda um luxo dos milionários e muito raro. O maior meio de comunicação à
distância era o telégrafo.
A cidade
fervilhava culturalmente, com os barões do café investindo na cultura e
importando da Europa muitas obras.
Os bondes ainda
eram puxados por burros, mas o bonde elétrico já era visto nas principais avenidas da capital, mostrando que o
progresso chegava galopante a capital paulista.
A religião dominante era a católica
e as famílias tinham o costume
da missa dominical, onde os encontros eram realmente aguardados como um evento
social.
Foi nesse
cenário de uma urbe em franca expansão que o Espiritismo enfrentou duras
perseguições e restrições legais.
Ser espírita
nessa São Paulo capitalista, voltada aos valores amoedados que a erguia, não
foi nada fácil.
As perseguições
eram enormes. Os espíritas, os poucos corajosos, eram difamados, chamados de
charlatões, bruxos e acusados de pactos com satanás.
Bispos e padres
constantemente atacavam o Espiritismo e tinham livre acesso aos periódicos para
escrever contra a Doutrina o que quisessem, acusando-a de sortilégios e magia
negra.
Nosso irmão
Juventino era um bom homem, bom marido e bom pai. Se apaixonara profundamente
pela Doutrina Espírita a primeira vez que teve o Livro dos Espíritos em suas
mãos, edição ainda na língua francesa.
Junto a outros
confrades, com muito esforço, fundaram o núcleo de estudos espíritas e
caridade. Num sobrado, afastado do centro, investiram no esclarecimento das
almas através dos estudos e nos atendimentos aos mais necessitados, que viviam
à margem de toda aquela riqueza da elite, lutando por um lugar ao sol, no
burburinho daquela São Paulo rica de contrastes e separações de classes.
Um dia, um dos confrades, colaborador do núcleo e também um dos seus
fundadores, pediu para ter uma conversa em particular com Juventino. Esse, com seu habitual
sorriso no rosto, recebeu o amigo dentista conceituado, formado
no Rio de Janeiro, o venerando doutor Cosme,
assim:
-“Em que posso servi-lo, meu caro Cosme?”
A conversa se deu
inicialmente num tom muito prazeroso, até que o dentista entrou num assunto
muito delicado.
-“Juventino, venho em nome do nosso grupo falar-lhe em privado!”
-As fofocas a respeito da sua pessoa têm crescido
bastante. Nas rodas sociais, nos salões e cafés da cidade, seu nome tem sido difamado de muitas maneiras e o amigo é acusado de ser um grande
charlatão. Dizem que você já está perto de comprar mansão luxuosa no novo
bairro de Higienópolis com as doações que tem recebido aqui.
-Lembre que a polícia já bateu à nossa porta algumas
vezes para averiguações e estamos cerceados e limitados nas nossas atividades.
Até dizem que as mulheres que aqui vêm receber socorro, se deitam contigo.
-Tens sido acusado de todo tipo de sortilégio e as
calúnias só crescem.
-Nos reunimos e estamos receosos dessa perseguição
sobre a sua figura, tão atuante na caridade. Sabemos ser tudo um plano de
difamação e bem conhecemos a sua
inteireza e integridade de homem probo. Mas pensamos que seria melhor que se
afastasse um tempo do Espiritismo para ganhar uma trégua.
Juventino, ouvia
tudo serenamente, sem qualquer afetação, e logo respondeu:
-Meu caro Cosme... Vi diversas vezes você
atender os mais pobres, e estes, sabemos, tem poucas condições de higiene
bucal.
-Tens lidado com mau-hálitos severos,
inflamações diversas, dentes podres, abscessos, verdadeiras feridas da boca,
além de estar exposto a riscos de contaminação, sob o perigo de contrair uma
doença infecciosa, tal qual a sífilis ou a temida tuberculose, que são
facilmente transmitidas com o contato com o sangue e secreções.
-Mesmo assim, não o vi arredar pé, nem renegar
o trabalho.
-Agora pergunto, deixaria a odontologia por
causa dessas bocas podres e doentes?
Entendendo onde o
companheiro queria chegar, Cosme respondeu sorrindo:
-De verdade não, meu amigo, pois abracei essa
profissão por amor, o mesmo amor que
devoto aqui à caridade no atendimento gratuito aos indigentes e necessitados.
E Juventino, jovial, asseverou:
-Também eu, meu irmão, não fugirei por causa
dessas ‘bocas podres’ que teimam em caluniar, mentir, depreciar. Também
eu, não darei
as costas
às tarefas do bem, por causa dos maus e das suas ‘bocas doentes’.
-E nunca me defenderei das difamações, deixo isso a cargo de
Jesus.
E enlaçando
o amigo dentista, confidenciou:
-Nós outros, cuidemos
de servir e esclarecer aqueles
que querem receber o pouco que
temos para doar.
II
Os
outros confrades, de longe, viram quando os dois saíram abraçados e
reconheceram neles os espíritas corajosos, verdadeiros heróis, que deram os
primeiros passos para que a sociedade brasileira, aos poucos, aceitasse as
verdades espirituais.
Batuíra
Mensagem psicografada na sessão mediúnica do dia 28 de julho de 2025, na Mansão do Caminho, pelo médium Jorge Antônio

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