A Salvador de antigamente era muito diferente dessa urbe agitada dos dias atuais.A cidade, que já havia sido capital do Brasil, trazia uma forte influência cultural vinda da Europa.
Era a cidade das muitas igrejas, onde o sino das torres barrocas badalava as horas, no costume do povo, avisando a passagem do tempo.
A vida na 'Roma Negra', como ficou conhecida Salvador, era pacata e bucólica. O verde se destacava e, ao redor da cidade, existiam muitas chácaras e fazendas.
Salvador se revelava por sua beleza arquitetônica colonial, banhada pelas águas turquesas da linda Baía de Todos os Santos, com seu mar que recebia todo tipo de embarcações, protegido por seus arrecifes e costas de pedra.
Salvador das ruas estreitas, ornadas de casarões coloridos, de um povo hospitaleiro, alegre, afeito às conversações. Tanto que virou mania do povo colocar as cadeiras nas calçadas para, no final das tardes, manter as conversações ao sopro da brisa baiana.
Salvador das miscigenações, das procissões religiosas, que, depois do naufrágio do galeão Sacramento, devido à encosta cheia de recifes, decidiu colocar um farol no interior do Forte de Santo Antônio, sem saber que o Farol da Barra se tornaria, mais tarde, o grande cartão-postal da cidade.
Ainda era a Salvador dos bondes, que cruzavam as ruas nos trilhos, avisando aos pedestres que estavam passando através das suas sinetas. Salvador das rodas de capoeira, antes marginalizadas, que também virariam atração cultural.
Dentro do seu imenso contraste, destacavam-se dois grupos: aqueles que se vestiam à moda europeia. Os homens usavam coletes, ternos e chapéus; as mulheres vestiam vestidos longos, rendas e anáguas.
Já as baianas, descendentes da miscigenação africana, continuavam a usar saias rodadas, turbantes e batas rendadas. Os homens vestiam roupas brancas, calças de pano e também batas coloridas, mantendo vivas as tradições de seus ancestrais.
A vida cultural dessa Salvador antiga fervilhava. Havia saraus literários, grupos de declamação de poesia; entre eles estava Castro Alves, com suas poesias de cunho abolicionista.
As reuniões se davam em cafés, imitando os da Europa. Os passeios de domingo eram famosos, e o “footing” na aclamada rua Chile era onde todos iam mostrar as novidades.
A música e o teatro também se destacavam nessa Salvador, que fervilhava com as novidades vindas da Europa.
Salvador era, assim, uma cidade de misturas, com a vida cultural rica e em constante transformação.
O sincretismo religioso era evidente nessa Salvador. As religiões de origem africana se misturavam ao catolicismo, e os terreiros de candomblé pipocavam pelos bairros mais afastados.
Mesmo muitos católicos, frequentando a igreja, eram também admiradores da religião de origem africana.
A bem da verdade, o que nos cabe dizer é que, talvez exatamente por isso, a influência do Espiritismo encontrou na Bahia um ambiente propício para se desenvolver, pois já existia uma crença na comunicação com os espíritos, principalmente entre os adeptos das religiões afro-brasileiras.
Porém, antes mesmo de o eminente professor Rivail se debruçar pesquisando sobre os singulares fenômenos que foram anotados na América do Norte e, em breve, tomariam os salões da Europa e parte da Ásia, a Bahia já demonstrava que estava destinada a difundir o Espiritismo pelo mundo.
No município de Mata de São João, a 60 km de Salvador, a cidade vivenciou estranhas ocorrências: batidas misteriosas, movimentos de objetos sem causa aparente e comunicações espirituais entre seu povo. Esses acontecimentos chamaram atenção na época, mas foram pouco investigados.
A França, então, particularmente Paris, era a capital cultural do mundo.
O que acontecia nos salões da sociedade, junto aos fenômenos espíritas, fascinava a todos e fez estremecer toda a Europa, criando bastante curiosidade.
As mesas girantes mostravam singulares fenômenos. Essas manifestações, embora cheias de brincadeiras e curiosidade, preparavam o terreno para as lições espirituais que chegariam, atraindo Kardec a se aprofundar sobre elas.
E não demorou muito para essas mesas girantes cruzarem o Atlântico e chegarem quase que simultaneamente às cortes do Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Bahia, de onde floresceu para todo o Brasil.
Era uma Bahia pulsante, cheia de intelectuais. Muitos liam e escreviam em francês, que, na época, era então o inglês dos dias atuais em sua importância.
Foi quando as primeiras obras espíritas, ainda em francês, chegaram ao Brasil.
E foi nessa Salvador, aqui narrada, que se desdobrou o Espiritismo nas terras do Cruzeiro.
Muitos vultos idealistas se destacaram no Espiritismo da Bahia, e vamos mencionar aqueles mais significativos para a divulgação da Doutrina.
Destaca-se, logo no início, o jornalista Teles de Menezes, que fundou em Salvador o primeiro centro espírita, datado de 17 de setembro de 1865.
Quase quatro anos mais tarde, Teles lançava também o primeiro jornal espírita do país, intitulado “Eco de Além Túmulo”, título que desagradou bastante à Igreja e deu início a perseguições.
O Espiritismo que aflorava na Bahia cresceu, não sem lutas.
As perseguições ocorreram e não foram mais intensas devido aos grandes nomes que se juntaram à Doutrina: pessoas cultas, de relevo e respeitadas na sociedade.
Salvador se modificava, transformando-se como cidade e recebendo muitas influências.
Outros nomes se destacaram no Espiritismo baiano, como o também jornalista e poeta José Petitinga, que muito contribuiu no cenário espírita, expandindo o Espiritismo para todo o Estado.
Em 1915, ele funda a União Espírita Baiana, e seu fervor pela Doutrina dá exemplos de um trabalho inapagável em prol da divulgação, esclarecendo, socorrendo e auxiliando milhares, ajudando a inaugurar centros espíritas em todo o Estado.
Outro nome se destaca como figura eminente: Manoel Philomeno de Miranda, que usou sua posição catedrática junto à fé espírita.
Mais tarde, como Espírito, atuou como um médico de almas; suas obras esclarecedoras, até hoje, ajudam muitos a tomar consciência sobre as facetas da vida maior e os desajustes que a criatura pode enfrentar junto às obsessões.
Outro vulto notável do Espiritismo na Bahia foi o igualmente jornalista, educador e teatrólogo Leopoldo Machado, que dedicou sua vida à educação da juventude.
Como educador que era, teve grande sucesso com as mocidades espíritas, tornando-se referência nessa área e deixando um legado inestimável ao aproximar os jovens da Doutrina.
Outro nome que não posso deixar de mencionar é o amigo e conterrâneo de Caetité, João Gumes, escritor que muito trabalhou em prol da nossa Doutrina, fundando o primeiro jornal espírita do interior da Bahia, espalhando-o por todo o sertão e levando a palavra espírita aos mais simples.
Salvador, assim, se mostrava um polo de novidades.
Mas as festas cresciam, e seu povo era afeiçoado aos bailes e júbilos, enquanto o Espiritismo enfrentava uma época de combates e desistências.
Já na década de 40, no século XX, um rapaz de 17 anos, vindo do interior da Bahia, chegou a Salvador para trabalhar sua mediunidade e, em pouco tempo, sua oratória se fez notável.
Com o passar do tempo, Divaldo Pereira Franco, na atualidade, tornou-se a maior representação do Espiritismo no Brasil e seu embaixador no mundo.
Junto a Nilson de Souza Pereira, ergue uma obra de assistência, esclarecimento e educação inigualável.
Divaldo torna-se, assim, o verdadeiro Paulo de Tarso dos tempos modernos, liderando a Doutrina dos Espíritos mundo afora.
Assim como Paulo inaugurou igrejas na Europa e Ásia, Divaldo inaugurou muitos centros espíritas ao redor do nosso mundo.
Seus colaboradores, muitos ainda em atividade, dão continuidade a essa missão.
E novos vultos chegam para dar seguimento a essa obra de caridade e amor sob a égide de Francisco de Assis.
Assim, notamos como a Bahia teve e tem sua importância eminente no Espiritismo brasileiro e mundial.
Não à toa, as terras do Cruzeiro do Sul, Pátria do Evangelho, foram descobertas na Bahia, e seu solo fez florescer o Espiritismo, sendo referência e inspirando gigantescos avanços, coalhando inúmeros centros espíritas pelo seu estado, coroados de médiuns que fazem a ponte com o mundo dos Espíritos.
Assim, sigamos, trabalhando para Ismael e Jesus, na continuidade das nossas tarefas.
Um amigo espírita, baiano e grande defensor da causa.
Aristides Spínola
Mensagem psicografada na sessão mediúnica do dia 10 de março de 2025, na Mansão do Caminho,pelo médium Jorge Antônio.
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