Ciclo vicioso - Alberto Fonseca (939)

Terêncio experimentava grande desalento. Fazia tempo que perdera o juízo de si mesmo. Tinha desconhecimento de quanto tempo estava naquele sítio desolado, diante da própria consciência. Os conflitos iam e vinham, a mente prisioneira da dor.

Não era como essa dor experimentada na Terra. Agora provava uma dor latente, diferente. Uma dor que juntava remorso, culpa, rebeldia, desespero e lamentos. Uma dor que se repetia em ciclos infinitos, indo e vindo, sem términos. Aquilo era uma dor insuperável, difícil de suportar. Era prisioneiro da própria mente em pensamentos descoordenados, acusadores e lastimados.

Olhava ao redor e não sabia onde estava. Na verdade, nunca soube. Seria aquilo o inferno? Mas onde o fogo eterno? Dentro dele mesmo. Tudo abrasava, queimava em latente culpa. O remorso era um ácido que lhe corroía o íntimo, naquele cenário cinza de vegetação mirrada, sem qualquer momento de alegria, sem beleza, sem a luz do sol, naquele horizonte feio, enegrecido, naquele clima sempre frio e nevoento. Assim eram os dias sucessivos e a consciência bradava, severa, acusando-o de desleixado, de infiel, de tirano orgulhoso, de toda cupidez.

E, de repente, cenas lamentáveis lhe alcançavam a tela mnemônica e ele se reconhecia em sucessivas vidas, um verdadeiro déspota, humilhando e pisando nos semelhantes.

Assim se sucediam os dias naquela miséria sem fim, naquele abismo esquecido de Deus, onde gemidos, lamentos e gritos de desespero eram os diálogos insustentáveis de todas as horas.

O açodar dos tormentos parecia se estender sem refrigério, até que um dia Terêncio sentiu algo diferente.

Nunca tivera sido religioso. Religião, para ele, sempre foi um sinal de fraqueza, um ópio das massas comandadas por fanatismos e crenças bobas.

No entanto, naquele desespero, naquele deserto sem esperanças, lembrou-se daquele Cristo que, vezes sem conta, à querida mãe tentou apresentá-lo, e ele, rebelde, nunca se permitiu ouvir as recomendações maternas.

De repente, em choro copioso, lembrou-se daquele Cristo crucificado na parede, que a mãe, de joelhos no quarto, de mãos justapostas, tanto orava.

Então, também se deixou arquear, jogando-se ao solo áspero e cascalhento. Em copioso choro, chamou por Jesus:

— “Ó Senhor, dá-me outra chance, não aguento mais sofrer!”

As lágrimas banhavam-lhe o peito e escorriam até o chão, formando lama. E cada vez mais os gemidos e o choro fortaleciam-se.

E o chamado, mesmo aos berros contrários de outros, que diziam cala-te infeliz, continuava, implorando por socorro.

Entre soluços e rogativas, Terêncio percebeu uma luz tênue de início, rasgando a densidade trevosa daquele tugúrio e pouco em pouco a luz ficava mais forte.

E entre os olhos embaçados de lágrimas, viu um ser angélico estender-lhe a mão e como se ele pesasse o peso de uma pluma, foi carregado no colo afável e retirado daquele inferno.

De princípio pensou sonhar, mas era verdade. Notou que agora se movia, rapidamente, volitando no ar, se afastando mais e mais daquele cenário desolado.

A vegetação murcha foi ficando distante e o ar se tornou mais leve. Sentiu que os pulmões eram invadidos por um arejado clima.

Tudo era novo, as lágrimas ainda corriam sem parar, mas o rosto angélico daquele ser de luz sorria-lhe, acalmando-o e serenando seu íntimo exaurido.

Assim apascentou e adormeceu nos braços daquele Anjo.

Acordou no que lhe parecia um hospital, alvo, branco e brilhante. Tudo era claro, asseado, tão diferente do chiqueiro onde se locupletou em intransigente dor.

Aos poucos as explicações foram chegando. Os entendimentos se fizeram presentes e ele, pela primeira vez em muito tempo, tomou conhecimento de quem era.

Dias foram necessários na câmara de socorro e passado certo tempo, já se reconhecia e conseguia articular pensamentos sem padecer de acusações mentais. Os transtornos psíquicos aos poucos o deixavam e ele sentia alívio e já um certo equilíbrio.

Estava num posto avançado de socorro. Ficou ciente dos seus enganos, se reconheceu destituído de vontade própria, enquanto fora prisioneiro daquele sítio de horrores. Agora só restava aceitar sua condição de infeliz e único responsável pela própria desdita.

Ao correr do tempo e ante os novos aprendizados e a transferência para uma Colônia Espiritual, graças à Piedade Divina, só pensava em voltar à carne, queria uma nova chance para corrigir os erros de outrora, rogava ao bom Deus que lhe concedesse um novo mergulho no corpo para redimir os caminhos tortos.

Terêncio, nesse novo projeto, teve diversos encontros com os Técnicos da espiritualidade, em reuniões bem organizadas.

Planos foram traçados, novos roteiros organizados, rotas foram expostas, opções se figuraram salvadoras, e ele, encetando a escola do espírito, já se sentia mais fortificado para encarar novos desafios.

Os amigos do Alto lhe assistiriam à retaguarda, auxiliando-o ao sucesso da nova empreitada e, tomando coragem, mergulhou novamente na carne, num palco tão conhecido da Terra.

Favorecido por uma família religiosa, nasceu em berço cristão, foi educado nos princípios do Evangelho, recebeu todo o apoio, em todas as vertentes, mas, novamente, hipnotizado pelos desvarios da matéria, se deixou anestesiar novamente, viveu às expensas dos pais ricos, vertendo os delírios do corpo, sorvendo os prazeres da carne. Novamente tombou, resvalando no orgulho, na cupidez e caindo em mais delitos na avenida larga dos vícios.

A história assim se repete, idas e vindas no amarfanhar das ilusões, somente para descobrir que a reencarnação é dádiva maravilhosa, tão necessitada por todos nós, viajores incipientes, que temos que repetir as lições milhares de vezes, até que consigamos entender a proposta sacrossanta da redenção, pela humildade e pelo amor.

Deus nos concede intermináveis chances para acordarmos o íntimo e nos entregarmos ao desiderato da iluminação própria.

Quanta sabedoria ínsita nos mecanismos do Universo, que nos permite corrigir os passos e endireitar a marcha intermináveis vezes, até que possamos seguir a Jesus.

Terêncio é de certa forma todos nós, até chegarmos nesse momento único da conscientização e decidirmos parar de uma vez os velhos vícios, esquecermos as tendências inferiores, valorizando com consciência a oportunidade da encarnação para nos espiritualizar plenamente.

Alberto Fonseca

Mensagem psicografada na sessão mediúnica do dia 05 de dezembro de 2024, na Mansão do Caminho, pelo médium Jorge Antônio.t

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