O nome dele é João - Natividade (896)


O calor bafejava os ares de toda Judeia. As areias escaldantes dos desertos que cercavam as cidades, levadas pelos ventos quentes de verão, abafava, abrasando a estação cálida.

O sol, em lampejos dourados, deitava vagaroso no horizonte, derramando cores pastéis no céu da tardinha, que se despedia, chamando a noite para as reflexões no fechamento do dia.

Naquela casinha humilde, duas almas adoradoras do Deus único de Israel, conversavam no repasto.

“Isabel, que será do nosso tronco familiar? Não conseguimos dar sucessão à nossa linhagem e não recebemos no seio familiar a bênção de um rebento, para carregar nossa descendência, como manda a tradição. Já não suporto mais as zombarias e remoques dos insensíveis, que com ironia dizem que sou um galho seco, sem frutos.”

Isabel, bastante preocupada com os enfrentamentos do marido, junto às pilhérias e destrates do povo cruel sobre o sofrimento de ambos, sem conseguirem honrar as tradições familiares judaicas, abraçando-o ternamente, diz:

“Zacarias, minhas preces certamente não agradam o Altíssimo, pois todas as penitências e orações já fiz, mas meu ventre se mostra estéril e não consigo conceber. Os anos já vão adiantados, querido! Temos que aceitar esse fardo, que nós não seremos agraciados pelo Bom Deus para gestação de um filho.”

“Sou eu Isabel, já não tenho forças para gerar um filho, a idade me abate e os anos favorecem a senilidade, que já me chama para deixar essa terra de desventuras.”

Isabel, se aproximando da pequena janela incrustada na rocha, como que abanando o ar para um rápido refrigério do calor interno, asseverou:

“Não fale assim Zacarias. Deus há de nos recompensar pela nossa devoção e dedicação a Ele. Vamos orar e amanhã no templo, peça diante do santo altar.”

As preces foram rendidas ao Alto e aquelas almas afins lentamente se deixaram envolver pelos abraços do sono.

No outro dia, Zacarias já se encontrava no templo, atendendo ao seu trabalho de sacerdote, eleito para as cerimônias do incensamento no altar-mor, no âmago dos rituais da sua fé.

Adentrando sozinho no átrio e deixando para trás os populares na nave religiosa, respeitosamente e ajoelhado, pôs-se a orar. Ao preparar a resina perfumada para colocar no incensório, percebeu uma claridade no reservado quarto. Assustou-se ao ver de pé, ao seu lado esquerdo, uma Entidade Espiritual, nimbada de certa luz agradável aos olhos.

Um frio percorreu-lhe a espinha e assustado, esfregava sem parar os olhos, pensando delirar.

“Não temas Zacarias! Venho em nome do Senhor!” - Falou o ser angelical, que lhe emoldurava afeição e bastante candura.

“As tuas preces e as de Isabel foram ouvidas e, pelas bênçãos do Alto, trarão um filho ao lar. Isabel será mãe! O menino será chamado João e abrirá os caminhos para o Senhor, avisando da chegada do Messias, dando testemunho da verdade.”

Zacarias, mesmo ouvindo da boca de Gabriel, o enviado do Senhor, refutou. Incrédulo do que escutava, sua mente deu vazão à negatividade e às dúvidas de sempre, e pensou, como pode Isabel, em idade tão avançada, conceber agora uma criança, isso seria impossível.

Gabriel captando as imanações da mente de Zacarias e seu descrédito, lhe disse categórico:

“Porque duvidaste, Zacarias, da oferta de Deus para tua vida, seus lábios serão selados agora, até que testemunhe novamente a tua fé nas ordens do Senhor.”

O povo lá fora aguardava o incenso para a cerimônia e Zacarias se alongava bastante, preocupando a todos. Quando enfim Zacarias apareceu, estava lívido, assustado e fazia sinais sem poder se expressar por palavras. Muitos ali entenderam que ele tinha visto uma aparição divina.


II

Chegara a hora da cerimônia tradicional judia para consagração do filho único, registrando o menino.

Isabel trazia a criança no colo e diante da pergunta do sacerdote encarregado, de qual nome seria dado ao menino, deixou entender que Zacarias escolheria o nome. A tradição judaica pedia o nome de um antepassado ou do próprio pai na continuidade do tronco familiar.

Zacarias pediu uma tabuinha e nela escreveu; o nome é João.

O sacerdote, espantado, refutou: “mas Zacarias, eu conheço sua família e não há João nenhum nela.”

Agora, algo irritado, Zacarias, usando novamente da sua fé e seguindo as instruções de Gabriel, gritou efusivo, tomando sua voz de retorno: “o nome do menino será João!”

João cresceu diferente das outras crianças. As brincadeiras comuns à sua idade não lhe interessavam. Preferia acompanhar o pai aos rituais e trabalhos no templo e ouvia pensativo e atencioso os rabis discursando.

As cidades não lhe agradavam. Preferia os lugares afastados. Sua voz logo seria ouvida no ermo do deserto da Judeia, às margens do Jordão. Como um arauto, ele preparava as avenidas para o Messias que viria depois dele, asseverando que o reino de Deus e suas verdades haviam chegado, pedindo a penitência daqueles que viviam no erro, alertando que se arrependessem.

Sua fama crescia rápido; no templo de Salomão, em Jerusalém, os sacerdotes se mostravam preocupados com essa voz, que arrebatava mais e mais seguidores. Temendo a fama conquistada por João, logo o Sinédrio enviou alguns levitas e fariseus para o interrogarem no deserto.

“És tu algum profeta? És por acaso o Messias prometido? Alguns dizem que tu és Elias, que voltou. Que dizes?”

João, olhando para os servidores do Sinédrio, logo percebeu a maldade daqueles corações, sem dar muita importância a eles, afastou- se, enunciando: “não sou o Messias, Elias ou profeta. Sou a voz que clama no deserto, aplanando as veredas, avisando que Ele chegou trazendo a Boa Nova!”

A pequena multidão que o seguia se alvoroçou, como que batendo os pés nas águas do rio Jordão. Os sacerdotes e enviados do Sinédrio entenderam que ali não eram bem-vindos e se retiraram.

João soprava nas almas sofridas um novo alento, renovando a fé em Deus e na Sua Justiça. Muitos vinham ouvi-lo. Seus discursos eram fervorosos e muitos se deslocavam até o deserto, em verdadeiras caravanas, para somente escutá-lo e serem por ele batizados nas águas refrigerantes do Jordão.

Sem demora, João reunia muitos discípulos, que o seguiam, auxiliando nas pregações e prenúncios da Boa Nova.

João deu-se conta que seu trabalho era grande, aquelas consciências brutas, eram difíceis de serem tomadas integralmente pela palavra do bem. A verdade é que, seus colaboradores não entendiam perfeitamente a sua missão, talvez nem ele mesmo a entendesse totalmente. E naquela tarde João sentia-se possuído por reflexões e uma certa incerteza.

Aquele jovem, maltratado pelo sol causticaste do deserto, vivendo à base de uma alimentação frugal, com a pele queimada, deixava transparecer nos seus olhos, embora a energia e firmeza das palavras, uma docilidade e melancolia imensas. Da pedra onde refletia, em preces silenciosas ao Alto, procurando entendimento, viu se aproximar uma figura diferenciada.

Os passos eram firmes, porém com uma graça jamais vista. Irradiava amenidade em todas as direções. Os cabelos da cor do bronze, reluziam à luz do sol, os olhos brilhavam, convidando ao amor inexprimível. Chegou sorrindo, olhando João lá dentro da alma, alegrando seu coração de imediato.

Era Jesus, seu primo, filho de Maria de Nazaré. João pulou da pedra de um salto e veio arrastando a água com passadas vigorosas dentro do rio, com as mãos levantadas, bradava;

“Ele chegou! Ele chegou! O sol raiou finalmente!”

Jesus sorrindo, irradiando humildade, se aproximou de João e pediu para ser batizado por ele. João se negou, sabendo que Jesus não guardava nenhum pecado e que não precisava se arrepender de nada.

Jesus com ternura, toca-lhe no ombro e fala: “João, deixemos que seja assim, pois faremos o que Deus quer”.

Ao batizar Jesus, João sintonizou com o Alto e percebeu, numa visão mediúnica, um vértice de luz que vinha de cima, descendo em forma de um cone, com uma pureza nunca vista, em raios luminosos que acendiam o Cristo, descidos do firmamento para patentear aquele momento.

Em completo êxtase, com olhos umedecidos e com a alma em festa, João clama reverencioso:

“Aí está o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo! Era dEle que todo o tempo eu falava. Esse é o Filho de Deus!!”

Depois desse encontro, João tornou-se ainda mais forte para os testemunhos que viriam. No entanto, seus discípulos ficaram enciumados, porque diante de uma discussão com alguns judeus, uma ironia lhes foi noticiada.

“Vocês estão em declínio, aquele novo Mestre, batizado por João, está roubando o lugar dele como profeta e rapidamente já tem mais adeptos que vocês.” Bastante atormentados por isso, com os seus valores reduzidos, os discípulos de João o procuram e como que magoados, alegaram:

“Aquele Jesus, a quem tu batizou, virou nosso concorrente e está tomando nossos seguidores, mestre.”

É nessa circunstância, onde as vaidades e orgulhos humanos estão agindo, sem sentido, que João Batista deixa para nós todos, cristãos, a maior lição no tempo, enunciando:

“É preciso que Ele cresça e que eu me diminua.”

João, como o primeiro trabalhador do Evangelho, deixa claro que nosso papel é sempre de humildes coadjuvantes, o papel principal será sempre o de Jesus.

A frase de João transcende as eras e nos ensina que, quando servimos a causa do Cristo, devemos repousar as vaidades, os orgulhos todos e reconhecer que não somos o personagem mais importante, não temos o direito de nos colocar em evidência, usando da religião para nos favorecer o esnobismo. Devemos abandonar o exclusivismo, deixar de querer sempre dar destaque ao nosso eu. Desertar dos tantos melindres nascidos da soberba, que ainda residem em nós. Despovoar esse pensamento de importância que carregamos dentro do movimento, parando de julgar, de apontar os erros alheios, de criticar o outro, porque ele não é como achamos que deveria ser. Vamos desinflar esse ego, desabitar esse amor-próprio, tão frágil, que qualquer besteira nos fere e lembrar que, como João assevera:

“Jesus é enorme, gigantesco, Ele é a verdadeira luz, eu sou apenas o pedestal, que fica abaixo dos seus pés”.

E como tal, sejamos usados, como suportes que um pedestal é, para que Ele cresça mais e mais em nós e que estejamos a nos diminuir, para que Ele, na Sua inesquecível humildade, apareça nas nossas ações, palavras e sentimentos, asseverando que somos, cristãos de verdade.



Natividade

Mensagem psicografada na sessão mediúnica do dia 01 de abril de 2024, na Mansão do Caminho, pelo médium Jorge Antônio

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